Minhas lembranças do CXSP - João Moysés Filho

Minhas Lembranças do Clube de Xadrez São Paulo

As mais modernas tecnologias oferecem ao enxadrista a oportunidade de aperfeiçoar-se, acompanhar os principais torneios do mundo e, sobretudo, desafiar adversários de outras partes do planeta. Desnecessário, pois, enumerar as vantagens da era da internet. Tais avanços, contudo, não substituem o prazer de enfrentar, em tabuleiro convencional, um jogador ao vivo, de quem pressentimos as mais variadas emoções, e com quem, após o término do embate, analisamos os lances juntamente com outros jogadores. Qual enxadrista não se rende a esse simples deleite? Os apocalípticos que nos perdoem. Os espaços dedicados à prática do jogo de xadrez – amador ou profissional- continuam necessários, indispensáveis e insubstituíveis. Com a palavra, então, João Moysés Filho, cuja família foi, durante décadas, a própria cara do CXSP.  

       

Comecei a frequentar o CXSP em 1962, aos doze anos de idade. No primeiro dia que estive no Clube, a minha maior emoção foi a experiência de apertar o relógio. A importância do CXSP na minha formação enxadrística foi total porque  todo meu conhecimento do jogo vem da prática, nunca estudei xadrez. Quando presidente do Clube, trouxe da Holanda um tabuleiro que era acoplado ao computador e, quando mexíamos uma peça no tabuleiro, ela se movimentava na tela do computador. Decidi colocá-lo para disputar os torneios e quando os mestres iam jogar contra ele, todos assistiam às partidas. Os mestres sempre perdiam do computador até que se revoltaram dizendo que não mais participariam do torneio, eu tirei o computador da disputa, preferindo a presença dos mestres.    

Meu pai, que morava em Presidente Prudente, às vezes vinha a São Paulo apenas para jogar xadrez, e parece que o Clube ficava na Rua Piratininga, nessa época ele já o frequentava, e depois foi para a Rua Vinte e Quatro de Maio. Meu pai amava o xadrez, lembro-me o dia em que ele chamou todos os filhos, somos nove, pôs o tabuleiro sobre a mesa e começou a nos ensinar os movimentos de cada peça. Depois de meia hora, levanto a cabeça e apenas a Ivone e eu estávamos ali, os outros não se interessaram. A partir daí eu jogava xadrez todos os dias com a Ivone e quem ganhasse a partida recebia o equivalente à importância de R$ 1,00. Nunca estudamos profundamente xadrez, ficamos apenas na prática. Ela tornou-se, por várias vezes, Campeã Brasileira e até representou o Brasil no exterior e eu fiquei no amadorismo, mas adoro jogar xadrez, quando jogo, esqueço de tudo.

Teve um caso curioso com o meu pai, o Clube já era na Rua Araújo. Meu pai estava sentado em frente ao tabuleiro com as peças arrumadas quando chega uma pessoa e convida-o para jogar relâmpago. Jogaram várias partidas e meu pai ganhou todas, seu adversário vai ao banheiro e os sapos que estavam vendo a disputa perguntaram ao meu pai se o conhecia. Diante da resposta negativa, disseram-lhe, então, tratar-se de fulano de tal, o bam, bam, bam da época. O desafiante voltou à mesa e retomaram o relâmpago, mas meu pai não ganhou mais nenhuma partida dele.

São Paulo, 2 de junho de 2011