Minhas Lembranças do Clube de Xadrez São Paulo

Rua Boa Vista, Largo do Café e Rua Vinte e Quatro de Maio são alguns dos endereços do Clube antes de sua atual sede. Sempre no centro da cidade, não há dúvida de que a localização contribuiu para atrair dezenas de frequentadores. Não nos podemos esquecer também dos enxadristas que desembarcam na Capital para as competições em outras localidades, mas não deixam de “bater o ponto” no Clube. Lugar de encontro obrigatório, incontornável, que nos leva a desvendar muitos outros, como atesta, aliás, Ana Luiza Reis Bedê, em seu depoimento:

Fiquei sócia do CXSP em 1978, conhecia apenas os movimentos das peças. Aprendi muito graças à paciência dos jogadores. Nesse mesmo ano, Victor Korchnnoi, então vice-campeão mundial, deu uma simultânea e eu tive a sorte de poder enfrentá-lo. Durante meses, precisava sair do Clube às 17 h para conseguir estar em casa antes de escurecer – condição imposta por meu pai. Aos quatorze anos, tratavam-me com especial carinho, nunca faltava alguém para avisar: “Bedê, são quase 5 horas!”. Um dos meus anjos da guarda era o inesquecível Izidoro Virgilio Ribeiro. Figura imponente, de uma gentileza a toda prova e bastante severo quando necessário. No Clube, conheci meus dois grandes professores em diferentes momentos de meu desenvolvimento enxadrístico: Antônio Rocha e Antônio de Pádua Franco Filho. Aprendi muito, também, na raça, como se diz, enfrentando adversários na maioria das vezes bem mais fortes do que eu. Inconformada com as derrotas, as lágrimas eram inevitáveis e abundantes, para desconsolo do nosso querido Pano, que sempre me incentivava; o mesmo Pano que em uma tarde entrou repentinamente no aquário, onde jogadores se concentravam nas partidas ou se debruçavam sobre os livros no mais absoluto silêncio, com o rádio em alto volume: era jogo do Corinthians! No final dos anos 70, ainda estávamos nos acostumando com a liberdade de expressão reconquistada havia pouco; por isso, foi com grande surpresa que numa tarde, de 1979, escutamos de um alto-falante “Para não dizer que eu não falei das flores”, do Geraldo Vandré. No início dos anos 80, vieram outras descobertas. Lembro-me, por exemplo, quando Helder Câmara me levou para conhecer a Academia Paulista de Letras no Largo do Arouche. Assim, com o passar dos anos, o Clube de Xadrez São Paulo passou a representar para mim muito mais do que o cenário de torneios e grandes eventos. Afinal, estava estrategicamente bem localizado; dessa forma, vislumbravam-se interessantes pontos turísticos (Edifício Itália e o Copan) e culturais, como as livrarias, os sebos, os teatros e os cafés. No Clube de Xadrez São Paulo, não apenas conheci pessoas que se tornaram referências na minha juventude, como também criei laços de amizade que mantenho até hoje.

 

                                                                       São Paulo, 23 de maio de 2011