Dr.Márcio Elísio de FreitasJornal "A Noite", 1951– Artigo de Márcio Elísio de Freitas

XADREZ POR CORRESPONDÊNCIA

George Koltanowski é um mestre que há alguns anos se notabilizou por jogar quinze partidas às cegas. Atualmente, embora afastado dos grandes torneios, ele dirige urna secção diária de xadrez no jornal americano "San Francisco Chronicle". E está jogando simultâneamente quinhentas partidas, com seus leitores, dando suas respostas na aludida secção. Para facilidade de controle, cada adversário recebe um número. Eis como, em artigo publicado em "British Chess Magazine". ele conta a tristonha história de uma das partidas:

"N. 4.670 me enviou um lance. No próximo dia, ele me enviou um outro cartão, substituindo por outro o lance que ele havia enviado. Este segundo lance era melhor, mas sua admissão seria contra as regras. Naturalmente, eu o coloquei a par de que ele estava obrigado pelo seu primeiro lance enviado. (Não que eu seja cruel, mas como voces pensam que eu, não fizesse assim, poderia ganhar minhas partidas?) E então eu recebi a seguinte carta:

Prezado sr. Koltanowski: Meu marido (N. 4.670) está constantemente saindo da cidade, e eu sou sua secretária. Antes dele sair, ele me deu o seguinte lance para enviar ao senhor: TR1B, o qual eu escrevi erradamente. Quando eu voltava dos Correios, após expedir o cartão, lembrei-me que tinha escrito TR1C em vez de TR1B. Imediatamente eu enviei ao senhor uma correção.

Senhor Koltanowski, esta partida significa bastante para meu marido, e assim eu lhe peço para reconsiderar sua decisão pela qual eu sozinha estou muito envergonhada Eu Já vi o senhor na televisão e no cinema e o senhor não me pareceu um homem que deliberadamente ferisse alguém. Se o senhor insistir no lance, o senhor não somente desapontaria meu marido, muitíssimo, como também causaria uma porção de embaraços entre meu marido e eu. Por favor... Mrs. 4670.

Eu respondi:

Prazada Mrs. 4.670: Se algum marido é tão sensível como este, então o máximo que eu posso fazer é oferecer empate a seu marido. Não posso permitir que ele volte o lance primitivo, porque seria contra as regras do xadrez. - G. K.

E recebi um cartão do 4.670 «Empate aceito.»

E quem vocês pensam que é o trouxa? Naturalmente eu, por duas razões:

1a - Porque eu tinha uma torre inteirinha a mais ... o que significa que eu poderia ganhar a partida mesmo que eu o deixasse voltar uma dúzia de lances.

2a - N. 4.670 nunca foi casado."

PEDAÇO DE CONVERSA DURANTE UMA PARTIDA :

O episódio se refere ainda a Koltanowski. Em um torneio, jogava ele contra George Thomas. Durante a partida, às tantas, um espectador indagou:

- Eu vejo que você tem uma peça a menos; você a perdeu ou você a sacrificou ?

E Koltanowski, filosóficamente:

- Como posso saber? Eu direi quando a partida acabar, Se eu ganhar foi um sacrifício, se eu perder, então foi um erro.

XADREZ E BRIGA DE NAMORADOS:

Disputou-se recentemente um campeonato inter-colegial reunindo representantes de sete estados norte-americanos. Com surpresa geral, a vitória, dentre quase três centenas de disputantes sorriu... a uma moça, Miss Margie Gem de Washington. Em declarações à imprensa, a loura vencedora declarou que tinha apenas um mês de aprendizado de xadrez e devia sua vitória a uma rusga com seu "boy-friend". Pois, conforme ela esclareceu, quando rompeu seu noivado com John, ela ficou desesperada e então, para se distrair, pediu a seu avô que lhe ensinasse o xadrez. Em face da noticia, não será o caso de se recomendar o xadrez como terapêutica para as desilusões amorosas? Se a moda pegasse, talvez o cetro de Botvinnik fosse logo arrebatado...

UMA PARTIDA EXTRAVAGANTE:

Existem diversas maneiras de tratar a partida. Existe o jogador combinativo (Alekhine, Spielman), o jogador posicional (Capablanca. Eliskases) o psicológico (Lasker, Rubinstein), o defensivo (Fhlor), o tático (Marshall). etc.. Em certa ocasião, em nossa carreira, nós tentamos jogar uma partida pelo método bizarro. Foi nas eliminatórias do Campeonato Paulista de 1945, e nossa classificação (o que talvez convenha esclarecer) já estava garantida... Em que consiste a bizarria aplicada ao xadrez? Bem, isso é assunto prolixo; a partida seguinte talvez elucide. Apenas advertimos que não nos responsabilizamos pelo resultado de quem se animar a repetir o uso desse método...

BRANCAS: L. de A.
PRETAS: O Redator
.

1.P4R, C3BD
Custou-nos vinte minutos a lembrança desta defesa, receita mui esquisita do esquisito Nimzowith.

2.C3BR!
Nosso adversário joga o mais prudente – nada de ir afoitamente por terras desconhecidas...

3 B5C,P3TD 4 B4T
E eis que após tão somente quatro lances o tabuleiro espelha uma posição trivialíssima, ditada da corriqueira abertura Rui Lopes. Ao que parece, as brancas iriam vitoriar-se no combate psicológico, isto é, manietariam a partida dentro dos cânones conhecidos.

4 ... B5C!
Um lance que outra vez nos roubou bons minutos. Sua autoria é de Alapin, e é uma espécie de Rui Lopes às avessas. Todavia, em que pese sua ausência no xadrez magistral, não é visceralmente condenável; sua idéia é evitar um imediato P4D das brancas.

5 P3B
A sugestão de Fine é 5 O-O, CR2R ;6 P3B,B4T; 7 P4D, PxP; 8 PxP, P4D!; 9 PxP, DxP; 10 B3C, D4T!, etc.

5 ..., B4T; 6 BxC, PCxB;
Talvez fosse melhor 6 ... PDxB; 7 O-O, B5CR!; 8 P4D, C3B; 9 CD2D, PxP!, com relativa igualdade. Mas preferimos o lance do texto (6 ... PCxB) porque enseja mais dificuldade para as pretas. ( Tais são as estranhas exigências do método bizarro...)

7 O-O, P3D; 8 D4T
O primeiro engano das brancas: melhor seria P4D.

8 ..., B3C; 9 DxP xq., B2D; 10 D4B
Um mau lance que perde a qualidade (10 ..., B4C).

10 ..., C2R
Ao leitor que indagar a razão de ter sido omitido 10 ..., B4C, lembraremos que nessa partida as pretas estavam obrigadas a jogar pelo método bizarro – aquele lance teria facilitado a vitória, e método bizarro visa precisamente dificultá-la.

11 P4D, B4C;
Forçado, porque senão a vitória, invés de difícil seria impossível: as brancas ameaçavam um ataque devastador!

12 D3C, BxT; 13 RxB, O-O; 14 PxP, PxP; 15 CxP
As brancas se embalam...

15 ..., R1T; 16 CxP xq.
E já antes da resposta seguinte deixam escapar um "Oh!", pois percebem que 17 DxT (após 16 ..., TxC) falha ante 17 ..., D8D mate!

16 ..., TxC; 17 P3B, D6D xq.; 18 R1R, T(1T)1BR!; 19 P4BD,
E antes da resposta nosso adversário abandonou porque anunciamos mate em quatro lances.

 


   
   
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