Historia do Clube

Clube de Xadrez São Paulo – breve histórico

 

Em 1902, São Paulo era uma tranqüila cidade de menos de 300.000 habitantes. O barulho da vida cotidiana era caracterizado pelo tropel das alimárias e um ou outro pregoeiro de mercadorias, o mascate.

Conta Jorge Americano em “São Paulo Naquele Tempo” que os primeiros bondes elétricos (bondes, quem ainda se lembra deles?…) haviam sido inaugurados no ano anterior; a paisagem urbana era dominada pelo casario baixo, um grande número de igrejas em estilo colonial, tilburis e coches de aluguel e lampiões a gás. As comunicações eram difíceis e lentas, e notícias da Europa levavam um mês, quando não mais, para chegar.

Foi quando um grupo de entusiastas da arte de Caíssa, que já jogava seu xadrezinho acompanhado de chope em um bar germânico no Largo General Osório, decidiu fundar um clube dedicado à sua arte. Assim nasceu, ali perto, à Rua General Osório, dia 12 de junho de 1902, o Clube de Xadrez São Paulo. O nome não podia ser mais feliz. Acreditamos mesmo que o destino glorioso da entidade, resistindo à passagem do tempo, enquanto tantas outras associações bem mais poderosas têm desaparecido, deve-se primordialmente às dedicações e cuidados de que tantos deram provas no transcorrer do magnífico historial do clube, fascinados, se assim se pode dizer, por seu nome. A ata inaugural, bem como as duas seguintes, lavradas no idioma de Göethe, revelam as origens de sua formação, se bem que já então um pequeno grupo de nacionais se fizesse presente. Foram seus signatários: C. F. Lichtenberger, o primeiro presidente; C. Araújo, C. Henning, F. Suter, L. Heinsfurter, A. Ravache, H. Ewald, C. Mueller, C. Jerosch, L.Villa Real, R. Lehmann, A. Schmidt, G. Schurig e P. Regitz.

Várias vezes teve a entidade de mudar de local, passando do salão Progredior, à Rua 15 de Novembro, para a Rua Boa Vista, Largo da Sé, Ruas Libero Badaró, Quitanda, Álvares Penteado, Anhangabaú, Ladeira São João, Largo do Café e Rua 24 de Maio. Seus presidentes, nas duas primeiras décadas de existência, foram, além dos anteriormente citados, Marinho Briquet – também campeão do clube por largo período – e José de Azevedo Oliveira. Dessa primeira fase ficaram-nos os nomes dos mencionados campeões e também o de Vicente Túlio Romano, que então surgia, vindo do famoso Café Guarany, que foi o nosso primeiro representante de categoria internacional. É bom esclarecer que desde essa época o título de campeão do clube se confundia com o de campeão paulista, assim permanecendo até a década de 1940 – a Federação Paulista de Xadrez só seria fundada em 1942.

Também devemos às primeiras administrações do Clube a organização inicial de nossa biblioteca, com a obtenção de preciosos volumes e coleções de revistas e livros, autênticas raridades da literatura enxadrística mundial. Nos dias de hoje, a biblioteca do CXSP conta com aproximadamente 4.000 títulos, sendo pela quantidade e importância histórica dos livros considerada uma das mais importantes bibliotecas especializadas de todo o mundo.

Em 1925 quando da ida de Túlio Romano a Mar del Plata, onde participou com excelente figura do torneio internacional ali realizado, foi convidado para vir a São Paulo o Grande Mestre Ricardo Reti, então em Buenos Aires. Em nossa capital Reti permaneceu por mais de um mês, tendo inclusive batido o recorde mundial de partidas simultâneas de xadrez às cegas, jogando contra 29 tabuleiros! Também no ano de 1925 visitou o CXSP um dos jogadores mais fortes de todos os tempos, o russo Alexander Alekhine, que no Clube ministrou uma sessão de simultâneas. Alekhine conquistou o título mundial em 1927 em Buenos Aires, batendo o cubano Jose Raul Capablanca, outra legenda do esporte, que a caminho de Buenos Aires para esse match permaneceu por duas semanas em São Paulo, onde visitou por diversas vezes o CXSP, tendo ali ministrado uma memorável sessão de partidas simultâneas. Essa tradição de receber os principais jogadores mundiais é uma constante na história do CXSP. Dentre outros astros do esporte, estiveram em sua sede, além dos já citados, os campeões mundiais Max Euwe, Vassily Smyslov, Tigran Petrosian, Boris Spassky, Anatoly Karpov e Vladimir Kramnik. Outros jogadores exponenciais como Samuel Reshevsky, Miguel Najdorf, Ludwig Engels, Victor Kortchnoi, Bent Larsen, Oscar Panno, Ulf Andersson, Rafael Vaganian, Lubomir Ljubujevic, Anthony Milles, dentre tantos outros, visitaram o Clube. Todos os campeões brasileiros, assim como os maiores jogadores de xadrez do Brasil, participaram de torneios no CXSP, transformando-o na via central do xadrez brasileiro ao longo de sua existência mais que centenária.

 

Já em 1941 o CXSP realizou o primeiro torneio internacional de xadrez de grande categoria organizado no Brasil, denominado Torneio Internacional de Águas de São Pedro, patrocinadora da prova, que contou porém com o planejamento, concurso técnico e material do Clube, em cujas dependências se realizaram as últimas sessões da competição.

Outra iniciativa do CXSP foi a reestruturação da Federação Paulista de Xadrez, até então apenas no papel, e na qual o Clube foi o autêntico monitor, renunciando, inclusive, a participar dos primeiros torneios inter-clubes então realizados para permitir que outras entidades formassem suas equipes com elementos saídos das fileiras do Clube.

Em 1951 o Clube mudou-se para a sede da Rua 24 de Maio, última localização antes da sede atual. Em 1954, trazendo sua parcela de solidariedade às comemorações do quarto centenário da cidade, o CXSP organizou um Festival Nacional de Xadrez, reunindo em São Paulo enxadristas de todos os Estados, e um Torneio Internacional de Composições de Problemas, do qual foi editado subseqüentemente um livro bilíngüe, em português e francês, que foi distribuído a centros enxadrísticos do mundo inteiro.

Após esse período, Márcio Elísio de Freitas, ex-campeão brasileiro, ascendeu em 1959 à presidência do Clube, lançando uma forte campanha para compra de sede própria e efetuando uma reforma estatutária profunda, construindo a base da prosperidade do CXSP nas décadas de 1960 e 1970. Foi também dessa época a realização do primeiro torneio sul-americano realizado em nosso país, realizado na nova sede própria do CXSP à Rua Araújo.

A partir de 2008, o Clube passou a atuar em projetos sociais com mais intensidade, mantendo um curso de xadrez para 120 crianças na comunidade de Heliópolis, na zona sul da capital, com resultados significativos no desempenho escolar do grupo atendido.

O Clube de Xadrez São Paulo, motivo de orgulho para o xadrez brasileiro, é um patrimônio da cidade de São Paulo. É o clube de xadrez mais antigo das Américas, sendo um dos mais antigos do mundo. Suas amplas e confortáveis instalações possuem pouquíssimas similares em todo o mundo, assim como a sua ampla biblioteca. Instalado no centro da Cidade de São Paulo, com amplo acesso através de transportes públicos, muito próximo da estação República do Metrô, é um ponto de referência obrigatória a todos os jogadores e entusiastas do jogo de xadrez.

Constituído sob a forma de associação sem fins lucrativos, foi declarado entidade de utilidade pública estadual em 1952.

Com sua tradição centenária e seu magnífico patrimônio, o Clube de Xadrez São Paulo volta-se para a comunidade da cidade de São Paulo para prosseguir a sua missão de ensinar, estimular e entreter; servir de exemplo e de apoio, formar instrutores, árbitros e organizadores, permanecendo o repositório de tradições e centro de iniciativas, sempre a serviço de um duplo fim: cultuar a bela deusa do xadrez, Caíssa, e honrar a terra que lhe deu o nome.