Dois Grandes Mestres Alemães no Brasil

(Artigo escrito por Paulo Gonçalves Guimarães, publicado no site antigo do CXSP)

A deflagração da IIª Guerra Mundial (1939/1945) ocorreu quando era disputado, em Buenos Aires, o Torneio das Nações ou Taça Hamilton Russel, hoje denominado Olimpíada de Xadrez.

O acontecimento reteve na capital Argentina, por tempo mais prolongado, boa parte dos enxadristas disputantes, em sua maioria integrantes das equipes européias, impedidos de retornarem aos seus países, devido ao bloqueio naval mantido pelas forças aliadas.

Aproveitando e ensejo, o Dr. Américo Porto Alegre – profícuo Presidente do Clube de Xadrez São Paulo, promoveu o “Torneio Internacional de Águas de São Pedro”, na estância hidromineral do mesmo nome, situada no interior do Estado de São Paulo , atraindo, dessa forma, vários mestres europeus, entre os quais o 1° e o 3° tabuleiros da equipe alemã, Erich Eliskases e Ludwig Engels.

Erich Eliskases

 

Ludwig Engels

Terminado esse torneio, os dois alemães decidiram permanecer em São Paulo. E tinham boas razões para isso. Aqui encontraram um ambiente acolhedor, uma vez que a colônia alemã, concentrada em São Paulo, era numerosa e muito unida, desfrutando de boa situação econômico-financeira. Existiam várias organizações industriais, comerciais e financeiras, todas de elevado porte, como a Bayer, Berhing, Theodoro Willy e Banco Alemão, assegurando bons empregos e, conseqüentemente, um nível médio de vida bastante alto. Acrescente-se a essas condições favoráveis, a indisfarçável simpatia que o regime ditatorial vigente na época, sob a liderança de Getúlio Vargas, devotava aos chamados países do Eixo.

Havia um só aspecto desfavorável: a insipiência do xadrez paulista. Sem nenhuma organização administrativa e sem o menor prestígio junto aos poderes constituídos e à sociedade paulistana, o nosso xadrez não oferecia a menor oportunidade para o exercício do enxadrismo profissional. Na época, só existia o Clube de Xadrez São Paulo, com um reduzido quadro associativo e sob a ameaça constante de extinção. Mas, é interessante observar que o clube era um ponto de reunião de muitos alemães, remanescentes daquele seleto grupo que, na mesa de um bar do bairro de Santa Efigênia, fundaram o mais velho clube especializado em xadrez das Américas. Curiosamente, a ata de fundação está redigida em alemão.

Erich Eliskases, de formação tipicamente germânica – embora, no seu aspecto físico, estivesse muito distante do padrão ariano endeusado pelo Nazismo – conquistou rapidamente a simpatia de seus compatriotas e obteve a proteção dos líderes da colônia. Com uma cultura geral acima do nível médio, de maneiras sóbrias e sempre cavalheiresco, não lhe foi difícil angariar valiosas amizades. Mesmo entre os brasileiros , soube impor prestígio e respeito. Era benquisto e reverenciado por todos. Estudou intensamente a língua do país e, em pouco tempo, falava corretamente um português da melhor qualidade. Apoiado pelas maiores firmas alemãs de São Paulo, independentemente das suas atividades enxadrísticas – aliás, bem reduzidas para um grande mestre do seu renome – pode levar uma vida tranqüila e confortável. No “Torneio Interclubes da Cidade de São Paulo” de 1940, integrou uma equipe formada pelo funcionário da firma Theodoro Willy e, no ano seguinte, foi o 1° tabuleiro do São Paulo F. C.

Ludwig Engels não teve a mesma sorte. Introvertido, de poucas palavras e, por conseguinte, sem a mesma capacidade de relacionamento, não conseguiu igual receptividade junto aos seus patrícios. Todavia, mais do que essas características de natureza pessoal, certamente exerceram influência, para a notória aversão que encontrou, dois fatores excepcionais: não era adepto do regime político vigente na Alemanha e lhe atribuíram um comportamento sexual inaceitável na época. Nem mesmo o seu próprio companheiro da equipe alemã era seu amigo. Para ser mais exato eles se detestavam. Eliskases o evitava, de forma acintosa e quando a ele se referia era sempre de modo pouco elogioso.

 Assim rejeitado, não apenas pelos alemães mas, igualmente, por grande parte dos freqüentadores do Clube de Xadrez, o infeliz Engels passou por maus momentos. Suas privações teriam chegado aos extremos limites da fome. Ninguém lhe estendeu a mão, a não ser o enxadrista paulistano Lourenço Cordioli que, em troca de aulas de xadrez, lhe assegurava a alimentação diária. Porém, é certo que, nesse longo período de padecimentos, soube se portar com estoicismo, sem lamúrias.

Com a entrada do Brasil no conflito mundial, integrando as forças aliadas, a compacta colônia alemã se desagregou. Os bens das grandes firmas foram confiscados e as atividades dos seus cidadãos, foram submetidos às restrições peculiares ao estado de beligerância.

Obviamente, a brusca mudança alcançou, também, e com igual rigor, o mestre Eliskases, inviabilizando a sua permanência em São Paulo. A convite do livreiro Agarez, proprietário da revista “O Xadrez Brasileiro”, mudou-se para o Rio de Janeiro, que oferecia melhores condições de sobrevivência para um enxadrista profissional, por ser um centro enxadrístico mais evoluído. Assumiu a direção geral da referida revista, dando-lhe um novo dimissionamento técnico e cultural. Sob a direção de Eliskases, a revista ganhou elevado prestígio não só no Brasil como no Exterior.

Com o falecimento de Agarez e a conseqüente extinção da revista, Eliskases decidiu mudar-se para a Argentina, onde constituiu família e vive de forma abastada, graças à herança que lhe foi deixada por parentes falecidos na Alemanha.

Diga-se de passagem que Eliskases, alguns anos mais tarde, voltou a ter um novo contacto com o enxadrismo brasileiro. O Dr. Luiz Tavares da Silva, então Presidente da Confederação Brasileira de Xadrez, convidou-o para acompanhar Henrique da Costa Mecking, em importante torneio internacional. Entendia o Dr. Tavares que Eliskases poderia prestar boa colaboração ao nosso jovem grande mestre, dando-lhe informações sobre os seus contendores e auxiliando-o na análise das partidas suspensas.

Sem dúvida, uma má escolha. Se não bastasse as dificuldades, que qualquer um encontraria para exercer a função de “segundo” de Mequinho, pelo temperamento egocêntrico e autoritário do grande mestre brasileiro, Eliskases não se saiu bem da missão que lhe foi confiada pelo Dr. Tavares. Mostrou-se desatualizado e sem o indispensável espírito de luta. Um episódio ocorrido durante o transcurso do torneio comprova o que acabamos de afirmar. Uma das partidas de Mequinho foi suspensa em final que o jovem grande mestre admitia ter chances de vitória. Confiou a posição à análise de Eliskases, combinado a entrega dos resultados das suas análises para a manhã do dia seguinte. Com base nos estudos que efetuou em companhia do Dr. Tavares, Eliskases adiantou que a partida estava irremediavelmente empatada o que desagradou a Mequinho, por admitir que poderia ganhar. Reiniciada a partida, Mequinho depois de prolongada reflexão, abandonou as recomendações de Eliskases, seguindo linha de jogo selecionada no ato, ganhando a partida. Eliskases já não mais era o grande mestre, se não brilhante, como jamais foi, pelo menos, seguro e de eficiência tantas vezes comprovada. Era a conseqüência da prolongada inatividade, durante os vários anos que passou no Brasil.

Para Engels, as transformações de ordem política, ocorridas no cenário internacional, em nada afetaram as suas condições de vida. Continuou a enfrentar as mesmas dificuldades, que só se suavizaram anos mais tarde, em virtude da notável evolução que vinha ocorrendo no Xadrez de São Paulo. Assumiu a redação da coluna de xadrez do jornal “O Estado de S. Paulo” e começaram a surgir novas oportunidades para participar de torneios com premiações em dinheiro e para integrar equipes remuneradas. Tornou-se um apaixonado por São Paulo e daqui nunca mais quis sair. Mesmo assim, erradamente, não acolheu aos nossos insistentes pedidos de naturalização, condição indispensável para que pudesse participar dos campeonatos nacionais e representar o Brasil em competições internacionais. Esse alijamento espontâneo afetou sobremaneira o seu prestígio como mestre internacional. Como curiosidade: Engels era um hábil jogador de damas e participou de vários torneios oficiais, com relativo êxito.

 Sua morte, ocasionada por enfarte do miocárdio, o surpreendeu em horas da madrugada, no próprio leito do quarto que dividia com um amigo, em modesta residência do bairro de Vila Mariana. Foi enterrado em campa rasa no Cemitério da Lapa, ao lado de dois outros enxadristas, também sem parentes próximos e desprovidos de recursos financeiros.

Não sou suficientemente habilitado para tecer considerações sobre o estilo e o comportamento técnico dos dois grandes mestres. Todavia, na minha despretensiosa visão de simples aficionado, que acompanhou de perto a trajetória dos dois alemães, nos tempos em que viveram no Brasil, ouso estabelecer uma grosseira comparação, que poderá servir para dar uma idéia do meu modo de apreciar o xadrez por eles jogado. Diria que Eliskases poderia ser comparado a um avião bombardeiro. Pesado o lento, porém devastador. Jogava um xadrez científico, rigorosamente dentro dos seus próprios ensinamentos, contidos no excelente livro “Jogo de Posição”. Por sua vez, Engels, seria um avião-caça, ágil e ardiloso, porém frágil e vulnerável. Não são, todavia, de provocar grandes entusiasmos, pela sua forma sempre cautelosa e, para muitos, monótona. Já Engels buscava o ganho desde o primeiro lance, através de lances audaciosos, sem serem imprudentes. Um xadrez sempre agradável de se ver.

Dois Grandes Mestres Alemães no Brasil