Apontamentos sobre o centenário do CXSP

(Artigo escrito por Herman Claudius Van Riemsdijk, publicado no site antigo do CXSP)

Clube de Xadrez São Paulo foi fundado, em 12 de junho de 1902, por um grupo de alemães: Franz C. Lichtenberger, o primeiro presidente, Ludwig (Luiz) HeinsfurterAloys Schmidt (secretário da Ata de Fundação), Arthur RavacheCarlos HenningF. SüderHerman (Germano) EwaldCurt MüllerCarlos JeroschRudolph LehmannG. SchurigPaul RegitzG. AhringsmanAlexandre HaasAdolph SteenkenFrancisco Carlos F. de AraújoLeopoldo Villa Real Mário Polto, cujo neto homônimo ainda é sócio do Clube. A maioria era composta por sócios do Sport Clube Germânia (atualmente Esporte Clube Pinheiros). As três primeiras atas foram escritas em alemão. A escolha da língua de Goethe como a oficial foi assim justificada na Ata de Fundação: “Considerando que todos os sócios presentes a esta Assembléia dominam a língua alemã, nem todos, porém, o português, ficou resolvido após vivíssimos debates, que se adotasse, até ulterior deliberação, como oficial, a língua alemã …”. Destaque-se que o fundador do Germânia, Hans Nobiling, também foi sócio do Clube e chegou a fazer parte de nosso Conselho Fiscal.

Lichtenberger, um empresário na área da tipografia, mudou-se para Porto Alegre em 1903, mas continuou colaborando financeiramente com a entidade por diversos anos. A figura central dessa primeira era foi Ludwig (Luiz como era chamado e é citado em todas as atas) Heinsfurter, porém. Nascido em 1868 em Binswagen, Baviera, ele veio ao Brasil como diretor da Brasilianischer Bank für Deutschland, o Banco Alemão. Na primeira diretoria, ele é nomeado, por unanimidade, como o 1o ‘Orientador de Jogos’, cargo equivalente hoje ao de diretor de xadrez. Mas é na vida econômica da instituição que Heinsfurter deixou a sua grande marca. Na ata de 24 de junho de 1903, ele propõe fazer um seguro dos móveis e utensílios do Clube (‘cujo valor supera um conto de reis’), o que foi aceito. Numa ‘Assembléia da Diretoria para tratar do emprego do dinheiro disponível existente em caixa’, realizada em 2 de outubro de 1903, ficou o tesoureiro interino, Germano Ewald, autorizado a tirar do caixa a quantia de 400$00 para depositá-la pelo prazo de nove meses ao juro que se convencionar no Brasilianische Bank für Deutschland (a letra é de 418$000 traz o número de 3808 e a data de vencimento é 2 de julho de 1904), sendo o depósito feito sob o nome de Luiz Heinsfurter, junto com a apólice de seguro, 25498, da Transatlantische Feuer Versicherungs Actien Gesellschaft, Hamburgo, sobre os utensílios do Clube, no valor de 1.000$000, assegurados até o dia 28 de julho de 1904. É uma amostra clara da grande confiança depositada nele. Mesmo em 1916, quando a Primeira Guerra explode na Europa, ele continua dominando as economias do Clube. O dinheiro é transferido do Banco Alemão para a Caixa Econômica Estadual, mas Heinsfurter ainda é o responsável e – alguns anos depois – ele resgataria o Banco Alemão como o principal depositário das finanças da entidade.

 Heinsfurter é o único associado que, no período de 12 de junho de 1902 a 20 de fevereiro de 1922, não falta a uma assembléia ou reunião de diretoria sequer. Além de aplicar constantemente as finanças do Clube, faz as negociações com os locadores, participa com donativos, faz visitas a sócios adoentados e organiza torneios. A esposa, Estrea Heinsfurter, cuida de detalhes dos enfeites nas festas e o número de associados apresentados por ele é impressionante.

 É ele que ainda assina, em 20 de novembro de 1921 (o clube estava no Palacete Previdência, no Largo da Sé – 5o andar, sala 6 e abria diariamente de 12 a 24 horas), o comprovante no valor de 10$00 correspondente à jóia de ‘sócio correspondente’, recebido do campeoníssimo catarinense Demétrio Schead, de Itajaí. Schead colou-o na última página da cópia do Estatuto de 1909, que recebeu então. Presenteou o Clube com a cópia deste Estatuto – o único exemplar em posse do Clube – em 12 de outubro de 1959.

 A reunião de diretoria de 26 de março de 1922 é a primeira que não conta com a presença de Heinsfurter e na de 30 de abril discute-se um assunto de relevância: … ‘Ficou resolvido em seguida que fosse alugada uma caixa forte, em um dos bancos de São Paulo, para ser nela guardada o jogo de xadrez de marfim, ora depositado no Banco Alemão, sob a responsabilidade do Sr. Heinsfurter, que se retira para a Europa…’

Termina assim a era alemã do Clube ou, como costumamos brincar entre os que estão elaborando o livro ‘100 Anos do Clube de Xadrez São Paulo’, o fim do Primeiro Reich. Heinsfurter voltaria ainda ao Brasil, mantendo contato com o Clube, mas por causa de uma doença foi morar no Rio de Janeiro, onde morreu em 1945. Por sua vontade, foi enterrado em São Paulo, ao lado de sua esposa, na Vila Mariana.

 Na primeira sede, na Rua Gen. Osório 23, o Clube só permaneceu por alguns meses. Logo passou para a Rua Boa Vista 28, no Salão Wolfsschlucht, onde esteve por mais de uma vez. A entidade faz um verdadeiro recorrido pelo centro antigo de São Paulo. Além das já citadas, o clube passa ainda pelos seguintes endereços: Rua XV de NovembroLargo da Sé # 3 (Palacete Previdência)Rua da Quitanda, Rua Líbero Badaró (em mais de um local, mas principalmente na sobreloja do famoso Prédio Martinelli), Rua Anhangabaú, Rua Álvares Penteado, Largo do Café e Rua 24 de Maio, 250.

Seguiu-se uma época de ouro. Vicente Túlio Romano era a grande estrela do xadrez paulista e o Clube encontrava-se bem perto do poder. Era sócio desde 1905 Washington Luiz Pereira de Souza, que ocuparia a Secretaria de Justiça de São Paulo em 1906, seria prefeito da capital do Estado de 1914 a 1919 e presidente do Estado de São Paulo de 1920 a 1924. Finalmente, assumiria a Presidência da República em 1926. Seu filho, Caio Luiz Pereira de Souza, já era sócio há alguns anos quando das presidências dos quatrocentões Arnaldo PedrosoMarinho BriquetJosé de Azevedo Oliveira e Alcides Prestes. O último era irmão de Júlio Prestes e foi presidente do Estado de São Paulo a partir de 1927, tendo sido nomeado sócio honorário do CXSP em 1928, na mesma ocasião em que o foi Washington Luiz. Neste ambiente e contando com a colaboração decidida do Automóvel Clube Paulista, vieram a São Paulo três azes do xadrez mundial. No começo de 1925 veio Ricardo Réti, que ficou por um período superior a um mês em São Paulo e quebrou o recorde mundial de partidas às cegas, jogando contra 29 tabuleiros no Automóvel Clube de São Paulo, ganhando 22, empatando 5 e perdendo 2. Em 1926 foi a vez de Alexander Alekhine. Ministrou duas simultâneas, uma no dia 16 de novembro no CXSP contra 18 tabuleiros, vencendo todas e a outra no Automóvel Clube no dia seguinte contra 32 tabuleiros. Nesta, em que o então futuro campeão mundial jogou duas às cegas, ele perdeu uma partida para Arnaldo Pedroso e empatou três, contra Aristides CastanhoSchindo Uchoa e Paulo Novaes Barros.

Em 1927, porém, veio a visita mais ilustre. Numa época em que Luiz Eulálio Bueno Vidigal e Walter Sidney Pereira Leser, colegas de classe e ambos alunos de Marinho Briquet no Ginásio do Estado, entravam de sócios para o Clube, Caio Luiz Pereira de Souza ganhava o Campeonato da 2a Turma do Clube, à frente de Alcides Prestes e José de Azevedo OliveiraVicente Túlio Romano, que havia derrotado João de Souza Mendes Jr. por 2 a 0 num match amistoso realizado no Rio, em 1925 e ao americano Martin D. Hago em dois matches em 1925 e 1926, preparava-se para disputar o 1o Campeonato Brasileiro. Outra vez numa dobradinha com o Automóvel Clube e com o apoio decisivo dos associados do CXSP, Francisco de Godoy, Major Luiz Fonseca, Maurício Levy, Alcides Prestes, Vicente Giacaglini, entre outros, conseguiu-se trazer o campeão mundial José Raul Capablanca. O simpático cubano desembarcou em Santos do navio Western World em 13 de agosto de 1927 e ficaria durante 15 dias em São Paulo, fazendo as suas últimas exibições ainda como campeão do mundo. Ele deu cinco simultâneas, três no Automóvel Clube (dias 14, 18 e 27), uma no Clube de Xadrez São Paulo (dia 16) e uma no Club Athletico Paulistano (dia 23). Ela ainda faria duas palestras no anfiteatro do ‘Jardim de Infância’, provavelmente o atual Caetano de Campos. Nas simultâneas Capablanca perdeu apenas uma partida, na primeira exibição, para Eurico Penteado e empatou duas na simultânea do CXSP, contra Vicente Giacaglini e Octacílio Silveira de Barros. Contra Giacaglini ele ficaria totalmente perdido. O então vice-presidente do Clube adotou uma novidade que Vicente Túlio Romano havia adotado no ano anterior contra Hago e jogou uma partida brilhante. Veja abaixo as partidas:

A seguir veio um período de calmaria, revelando-se porém talentos como Raúl Herman Charlier, Boris Schneiderman e os irmãos Nelson e Synesio Martins Ferreira. No final dos anos 30 surge o dirigente Américo Porto Alegre. Sócio do Clube desde 1929, é um dos principais responsáveis pela ida do Clube para o Prédio Martinelli, participa ativamente da organização do Torneio Sul-Americano, realizado no Clube (a rodada inaugural seria no Foyer do Teatro Municipal) em 1937, na criação dos Torneios Interclubes da Federação Paulista de Xadrez, em 1939, e na realização do 1o Torneio Internacional com a participação de enxadristas europeus. A rodada inaugural desta competição também foi no Teatro Municipal, as rodadas seguintes no Grande Hotel, em Águas de São Pedro e as últimas quatro outra vez em São Paulo, no CXSP. Toda essa movimentação lhe valeu o apoio unânime para se tornar presidente tanto da Federação Paulista de Xadrez, em 1941, como do Clube de Xadrez São Paulo, em 1942. Ele manteria os cargos até 1951 em sucessivas reeleições por aclamação. Os destaques de sua gestão foram os Torneios Interclubes e os Torneios Internacionais no CXSP, em 1946 e 1947, seguidos da simultânea às cegas, em que Miguel Najdorf quebraria o recorde mundial, em 25 de janeiro de 1947, na Galeria Prestes Maia e o Torneio Internacional de 1948.

 Mas a sua gestão centralizadora também trouxe opositores. Num movimento idealizado por Márcio Elísio de Freitas e Vicente Túlio Romano, acabou entregando o poder, assumindo o último a presidência do Clube. Foi em sua gestão que se realizou o Torneio do Cinqüentenário, vencido pelo iugoslavo Braslav Rabar, empatado com o alemão Ludwig Engels. Engels era um dos ‘filhos’ da Olimpíada de 1939. Aqueles jogadores que resolveram se estabelecer na América do Sul depois que estourou a Segunda Guerra Mundial. A maioria ficou na Argentina, mas Engels e o austríaco Erich Eliskases vieram ao Brasil. Eliskases viveu de 1941 a 1948 entre São Paulo, Rio e Porto Alegre. Engels ficou somente em São Paulo, onde assumiria a redação da coluna de xadrez do jornal ‘O Estado de S. Paulo’, que manteria até a sua morte, em janeiro de 1967. Foi um dos principais formadores de jogadores do Clube, ao qual vinha diariamente.

Mas foi em 1960 que o Clube deu o grande salto de sua existência. Em 1959, quase no fundo do poço, ameaçado de extinção, o ex-campeão brasileiro Márcio Elísio de Freitas – ligado indiretamente ao Grupo Villares – assume a presidência do Clube e com um grupo de amigos (alguns enxadristas, mas muitos não!) viabiliza a compra de quatro andares no atual endereço, na Rua Araújo 154. Inaugurada a nova sede em 19 de novembro de 1960, a entidade viveu então o seu auge, com muitas competições e uma atividade social intensa. Durante algum tempo funcionou lá, no 4o andar, o luxuoso restaurante Torre de Prata. A biblioteca especializada, uma das melhores do mundo, com muitas obras do Século XIX (Bilguer’s Handbuch, coleções de revistas como Berliner Schachzeitung, Wiener Schachzeitung, Le Stratégie, British Chess Magazine, entre outros), é enriquecida com muitas obras novas. Torna-se – além do mais antigo – o mais importante clube especializado da América Latina.

Depois volta-se à realidade. O Clube aluga dois andares para poder sobreviver. O número de sócios, que alcançou um bom número na década de 70 (700, ao final do match Fischer x Spassky, em 1972!), volta a estabilizar-se em torno de 300. Seguem-se à presidência de Márcio as gestões de Arnaldo Ribeiro Pinto e Paulo Gonçalves Guimarães. Principalmente a última foi muito dinâmica. Vêm a seguir Aníbal CalladoFrancisco de Paula Salles Jr., Eurico Pacheco do Amaral e Paulo Rodrigues. Durante a presidência do último citado, em 1988, ocorre talvez a maior crise da história do Clube. Numa assembléia quente e tumultuada, foi deposto sob a acusação de tentar promover a venda da sede própria.

Segue um rápido triunvirato e vem a presidência de Sergio Silva de Freitas, que foi o presidente mais importante que o clube teve depois da era Márcio de Freitas. Na década de 70 ele já havia sido o principal responsável pela realização dos Torneios Cidade de São Paulo, na época em que era Secretário das Finanças de São Paulo no governo de Olavo Setúbal. Levado por este para o Banco Itaú, consegue promover muitos eventos, com destaque para os Torneios Zonais da Fide (Federação Internacional de Xadrez) e da Copa Itaú, que em 2002 terá a sua 6a edição.

Ele é sucedido por Antualpa do Valle NogueiraLourenço João Cordioli, Francisco de Assis Garcez Leme e João Moysés Filho. Chegamos ao século XXI ainda como um dos maiores clubes da América Latina e achamos que é hora de aproveitarmos o Centenário para mais uma arrancada.

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