Os Cavalos Mágicos de Tchigorin

(Artigo escrito por Ludwig Engels, publicado no site antigo do CXSP)

Ludwig Engels

Os teóricos enxadrísticos sempre preocuparam-se em estabelecer, mediante regras ou fórmulas, o valor da peça do jogo de xadrez, segundo a sua força na partida viva. Utilizaram-se, para conseguir o seu objetivo, de números comparativos, tomando por base um valor já conhecido, como por exemplo a Dama ou o Peão, as unidades máximas e mínimas, respectivamente. Atacaram esta importante questão analisando isoladamente a atuação das peças nas partidas dos mestres, e, dando a devida margem para o cálculo da relatividade dos valores como se apresenta na prática, chegaram a conclusões bastante precisas, contribuindo muito para o aperfeiçoamento da técnica atual do nosso jogo.

Entre as questões mais interessantes nesse campo de pesquisas científicas, encontramos aquela que trata do valor do cavalo comparado com o do bispo. O valor do cavalo, especialmente em virtude do seu movimento caprichoso, não podia ser medido, simplesmente, pelos métodos retilíneos (distâncias, número de casas, número de lances, etc.) e intrigou por muito tempo os teóricos. Mas, embora tivesse levado muitos anos para seu esclarecimento, essa questão foi resolvida a favor dos bispos, os quais superam os cavalos, decididamente, no valor do tempo.

É opinião unânime dos teóricos de que a posse do par de bispos, em troca dos dois cavalos, representa uma considerável vantagem material, na quase totalidade dos casos. Prevalece este teorema, sobretudo quando um jogador troca, no início da partida, os bispos contra os cavalos sem outra razão que a preferência subjetiva que dá aos últimos.

Dificilmente compreenderá o enxadrista de hoje e menos ainda o de amanhã uma preferência aparentemente tão absurda, já que encontra os conceitos enxadrísticos claramente expressos e devidamente explicados nos livros de ensino, sem ter a necessidade de formar, como os enxadristas de outrora, conceitos próprios para guiar-se na conduta de uma partida de xadrez.

No século passado, viveu um gênio enxadrista com a citada preferência. Chamava-se Mikhail Tchigorin, hoje venerado na Rússia como o maior enxadrista de todos os tempos. Tchigorin teve curta, mas brilhante carreira enxadrística, em virtude de uma habilidade extraordinária no jogo tático e, sobretudo, no manejo de sua peça predileta, que era o cavalo. Para ele, havia uma forte razão para acreditar na eficiência do cavalo, visto serem os “seus cavalos”, de fato, iguais ou superiores em força aos bispos adversários. Suas partidas constituem, até hoje, fonte inesgotável de ensinamentos valiosos para os enxadristas estudiosos.

Embora seja a principal finalidade destas linhas projetar uma luz sobre as curiosas particularidades do cavalo na luta contra o bispo, fomos obrigados a fazer uma análise completa da seguinte partida, visando demonstrar a relação íntima do nosso objeto de estudo com o resto das peças no tabuleiro, o .ânimo dos jogadores durante a luta, a razão psicológica dos poucos movimentos fracos na partida. Tivemos ainda o cuidado de fazer uma crítica justa e limitamos nossa análise às questões indispensáveis para a ilustração do nosso tema.

Com uma abertura original, o jogo endiabrado dos cavalos e o seu surpreendente arremate, a partida é uma obra de arte. Como tal, ela não precisa de explicações.

A primeira posição que merece o nosso interesse a que se dá depois do lance 9 das pretas e que vemos no diagrama seguinte:

As brancas estão com dois bispos e um forte centro de peões, além de um desenvolvimento superior, já que as suas peças, todas de longo alcance, dispõem exatamente de colunas e diagonais precisas para sua máxima evolução. Essa última vantagem torna-se clara aos nossos olhos levando em consideração o futuro das torres pretas. Dir-se-ia que as brancas estão com um jogo muito vantajoso e deveriam ganhar.

As pretas jogaram na base do conceito próprio e, segundo sua preferência, trocaram sumariamente os cavalos adversários, entregando, voluntariamente, uma vantagem que é a do tempo. Acreditam elas, ainda, serem os peões brancos de a2 e h2, assim como os peões dobrados na coluna f, sérias fraquezas a serem futuramente exploradas.

Desenvolve-se nesta partida, portanto, urna instrutiva luta de conceitos contrários provando que em xadrez é possível, como na vida, defender os pontos de vista mais diversos, dependendo a vitória de um sobre o outro menos da verdade científica do que da grandeza espiritual do seu preconizador.

Mas, sigamos a partida. Perfeitamente conscientes das vantagens posicionais conquistadas e sentindo-se em segurança, comete Lasker no lance seguinte um erro muito o característico, julgado pelos psicólogos como inevitável por ser inerente à condição humana: relaxar a vigilância! Com 10 Tg1 ele desiste, sem ser forçado a isso, da possibilidade de rocar. Este “momento psicológico” vai se repetir ainda varias vezes nesta luta.

Lasker prepara, com 10 Tg1, o ataque ao rei adversário, sem antes criar as condições favoráveis para tal empresa (centro bloqueado, posição segura do próprio rei e conexão das torres). Tchigorin, fiel ao seu estilo, desenvolve logo um jogo tático, que conduz a troca das damas. Essa troca não diminui, essencialmente, as vantagens das brancas, mas torna ilusório o mencionado ataque. E a partida entra em urna nova fase, cujo início se estabelece no diagrama seguinte.

Começa aqui a parte mais interessante da partida. Ambos os jogadores lutam para dar as suas respectivas peças a maior eficiência ou, o que e no efeito a mesma coisa: reduzir o alcance das peças inimigas; e Tchigorin, encontrando-se no seu elemento, supera decididamente o seu adversário que era então o Campeão do Mundo!

Na presente posição, ainda se notam as já conhecidas vantagens posicionais das brancas: o centro forte e o par de bispos. Lasker despreza aqui a continuação natural e enérgica 17 f5 por ser demais tática e possibilitar, futuramente, um maior jogo das torres pretas. Mas 17 a4, seguido de 18 Tgb1, e 19 Bc1, teriam resolvido o problema do BD branco, algo limitado ainda na sua eficiência. Ao invés disso, ele insiste na idéia preconcebida de um ataque na coluna g, pois compreende que a sua real superioridade posicional consiste na maior mobilidade de suas torres. Toda a defesa das pretas está dirigida habilmente para anular essa ameaça Ainda são as brancas que atacam e as pretas se defendem, porque dificilmente as pretas podem anular as vantagens evidentes de tempo do adversário. E cinco lances depois, temos a seguinte posição.

O aspecto da luta já mudou em conseqüência do plano falho de Lasker, ao procurar o ataque na ala do rei. Para as torres brancas, de nada serviu o domínio das verticais que elas possuíam desde o décimo lance, sendo que as torres contrárias desenvolveram um amplo jogo nas horizontais. O bloqueio diminuiu consideravelmente o efeito do BR, criando ao mesmo tempo pontos fortes (d5) para os cavalos. No momento, a ameaça é 22…Ta6, revelando o peão de a2 como uma fraqueza real! Lasker, sempre objetivo, dá-se conta imediatamente dessa mudança e põe em luta toda a sua capacidade técnica.

Uma conveniente defesa da atual ameaça seria o primeiro passo para sanar as dificuldades da posição branca; o transporte das torres para a ala da dama, o segundo; e o aproveitamento da maioria dos peões centrais, o terceiro.

Lasker, nesta luta titânica, consegue recuperar o terreno perdido. Vejamos agora a posição resultante vinte lances depois.

Voltou a reinar um ambiente com quase os mesmos valores do primeiro diagrama: forte centro e par de bispos. Mas as torres pretas estão jogando e existem os bloqueadores peões pretos em c4 e f5, que formam a base do sistema de Tchigorin para anular o valor dos bispos.

Se bem que o balanço de tudo isso ainda seja animador para as brancas, uma vez que a força de expansão dos peões centrais deverá decidir a luta num futuro próximo, as pretas, entretanto, dispõe sempre do uma defesa tática contra qualquer ameaça, criando novas dificuldades e prolongando a luta.

Na presente posição as brancas ameaçam 41 a5, com trocas convenientes de peões, sendo então a defesa natural das pretas 40…Ta5, como foi efetivamente jogado. Os bispos brancos deveriam atuar nas diagonais a2-g8 e h4-d8, aumentando assim seu potencial. De fato, a vitória das brancas seria fácil se elas conseguissem conjugar os seus principais recursos, que são o centro e os bispos móveis, resguardando as torres para o arremate final – por serem sensíveis aos ataques dos cavalos. Mas Lasker, no seu modo de pensar, considera a torre de a3 apenas como uma peça a ser melhorada. E jogou 41 Tg1+ para em seguida assegurar à outra torre a desejada mobilidade. Tal lance não é errado, e as brancas conservam até o fim o equilíbrio posicional. Mas esse lance é fraco por ser tão somente um lance e não um plano. Justo teria sido 41 e5, dando mais casas ao BR, ameaçando 42 Tb4 ou 42 Tg1+ e ainda 42 Bh4. Também ameaçaria 42 Be4 e 42 Tb5, sendo que as pretas deveriam estar indefesas contra tão numerosas ameaças.

Lasker evidentemente cansou-se dessa longa e difícil luta. Tendo sempre a vitória ao seu alcance sem a alcançar realmente, devido a urna habilíssima defesa tática do seu tenaz adversário, o condutor das brancas chegou a perigoso desgaste emocional e, impacientando-se o ao extremo, desiste dos cálculos exatos e se deixa iludir, se deixa envolver no auge da contenda. Por outro lado, é elevada a moral de Tchigorin, uma vez que ele conseguiu provar a eficiência de seus queridos cavalos contra um adversário de tal envergadura, não se importando se isso foi feito de urna forma apenas defensiva.

A luta continuou nessa densa atmosfera onde a nota predominante foi dada pela dança dos endiabrados cavalos pretos As brancas perderam tempo várias vezes, mas os cavalos, embora fossem de curto passo, chegaram sempre pontuais. E uma interessante posição vamos encontrar depois do lance 46 das pretas.

Agora,com o esquisito lance seguinte das brancas, 47 Td2, as pretas forçam o ganho do peão da coluna a.

Já a posição resultante, após o lance 52 das pretas, ilustra toda a brilhante vitória da estratégia de Tchigorin, tanto material quanto posicional.

Com um triste e passivo papel no início da partida, as torres pretas têm agora um desempenho preponderante no arremate da luta. E a despeito da possibilidade das brancas terem podido se defender melhor Com 55 Bc7, o mérito de Tchigorin é inegável. Criou com esta partida uma obra imortal da arte tática enxadrística !

 

Os Cavalos Mágicos de Tchigorin