O Precursor do Enxadrismo Nacional

(Texto e foto publicados na página 6 do jornal “Mundo Enxadrístico”, São Paulo, janeiro de 1949)

A quem não foi ainda dado o ensejo de conhecer o Dr. Mauricio Levy, podemos afirmar, de maneira positiva, não ser nada fácil analisar sua pessoa, quer sob o aspecto físico, quer sob o aspecto espiritual. Passando por entre os setenta e oitenta anos, mede cerca de 1,80 m. de altura, tem cabelos já grisalhos, nariz não muito afilado e por debaixo dele um bigode muito bem traçado.

A despeito de sua idade, já relativamente avançada, não perdeu nada de sua boa forma física, sendo que o seu corpo é ainda tão erecto como o é o de um jovem de vinte anos. Estampa-se, e está caracterizado em sua fisionomia, um espírito sobrio, firme, resoluto, um caráter imutável. É astuto e inteligente, sendo que suas resoluções, quer as ínfimas quer as mais complexas, são tomadas à base de ponderação.

Santos Dumont é para a aviação o que representa o Dr. Mauricio Levy para o enxadrismo nacional: o seu pai espiritual.

Efetivamente, fazer referência ao enxadrismo sem fazer coligação com esse grande mestre do “jogo ciência”, corresponde fazer alusão ao para-raio sem justapor o nome de seu idealizador Benjamin Franklin.

Tudo que foi dito se justificaria somente no fato de que, iniciando uma secção de xadrez em um vespertino de nossa Capital, no dia 14 de Janeiro de 1899, mantém-na ainda hoje, não se tendo registrado um só dia dos destinados – (sábados) – à sua secção em que tenha deixado de prendar aos seus inúmeros leitores com essa apresentação.

Objetivando rememorar e consignar com exatidão o débito que contraiu o enxadrismo com esse invulgar colaborador, nossa imaginação se transporta para o ano de 1885, quando, um rapaz, ainda adolescente, procurava, a despeito de somente ter iniciado os primeiros movimentos das peças do jogo “ciência”, resolver alguns problemas, isso com o auxílio de seus irmãos Luiz e Alexandre, os quais lhe haviam ministrados os primeiros ensinamentos.

Dando início, ou melhor, continuidade à sua vida enxadrística, com a qual se consorciou e jamais se divorciou, Maurício enviava ao primeiro redator que lançou o xadrez na imprensa brasileira, – Sr. Corbett , – um ensaio problemístico cujo redator, impressionado pelo prodigioso rapaz, não pode esconder e deixar de passar despercebido seu entusiasmo, apresentando ao mais novo problemista mundial as mais efusivas congratulações. Mesmo porque, reconhecia o Sr. Corbett, o fato de que o precoce rapaz jamais havia tido um professor na arte de xadrez.

Entretanto, seguiu-se um período de inatividade em sua vida enxadrística, quando teve que abandonar quase que totalmente esse setor esportivo para ingressar na Faculdade de Direito, onde veio a formar-se.

A 14 de janeiro de 1899 demarcou-se uma nova era para o enxadrismo nacional. Sob a direção do Dr.Maurício Levy abria-se no “Diário Popular” uma seção de xadrez, a qual norteada por um orientador de invulgar compreensão, jamais sofreu solução de continuidade. Nada menos de sete mil problemas foram lá publicados até a presente data.

E foi justamente naquela fase, iniciada em 1899, que brotou o maior surto de problemistas brasileiros, os quais, norteados pelo grande redator, eram por ele aconselhados e orientados em conformidade com as regras da arte que até então era quase que totalmente desconhecida em nossos meios.

Estimulados por Levy, surgiram à tona nos meios de xadrez, trabalhos de reconhecido valor, cujas publicações se tornaram realidade mercê de eficiente orientação por ele delineada, o que fez também com que seus discípulos tangenciassem a culminância do “cerebral jogo”. Destacou-se entre eles o Dr.Feliciano Mendes de Moraes Filho, do Rio de Janeiro, que, animado pelo mestre, resolveu, embora com relutância, inscrever-se em torneios nacionais e depois internacionais, tornando-se detentor de vários prêmios.

O Dr. Maurício Levy é figura de projeção no mundo inteiro. Nos livros publicados em alemão, inglês, francês e tantos outros idiomas, está consignado o nome desse grande vulto, orgulho do enxadrismo nacional. Da revista norte-americana, “The Good Companion”, mereceu o honroso título de vice-presidente em São Paulo.

Dos trabalhos apresentados em sua secção, que como se disse acima, foram publicados com invulgar pontualidade, diversos deles foram reproduzidos em revistas estrangeiras, entre as quais, “Deutsche Schachzeitung”; “Ruy Lopes”, dirigida por Toledo Carreras; “British Chess Magazine” de Laws; “Nuova Rivista degli Scacchi” de Valles e outras tantas, assim como em diversas publicações e jornais. Relembramos um comentário feito pelo celebérrimo prof. Berger, o qual, referindo-se a um dos problemas publicados por Levy, assim se expressou: “- Tout comme chez nous !”.

Foram coroadas de desusado sucesso suas publicações de “Lições Elementares de Xadrez” as quais aliás, não chegaram a ser compiladas em volume, não obstante a aprovação de todas as pessoas ligadas ao meio de xadrez, inclusive um , professor da Escola Normal, sr. J .E. Macedo Soares, que muito insistiu para que tão úteis publicações fossem reunidas em livro.

Custeando suas próprias despesas. trabalhando, portanto, em caráter estritamente amador, Mauricio Levy fez aparecer na imprensa paulistana, para gáudio de seus leitores, reportagem completa sobre as célebres partidas realizadas entre os maiores enxadristas mundiais, Capablanca e Alekhine. Todas as partidas. sem exceção foram publicadas quase que de imediato à realização dos jogos, cujas notícias a transmitir, devido às dificuldades decorrentes dos meios, obrigavam o repórter amador a atravessar noites em claro.

Graças à sua participação e direta colaboração, aos brasileiros foi dada  oportunidade de conhecer os três maiores enxadristas do mundo: Reti, Alekhine e Capablanca.

O nome do Dr. Mauricio Levy está também incluído no rol dos fundadores do Clube de Xadrez “S. Paulo”, onde, por diversas gestões, funcionou como presidente. Contra o gosto e comum desejo de todos os diretores e sócios do primeiro clube de xadrez do Brasil, foi obrigado, mais tarde, por questões particulares, a deixar a direção. Quase de imediato à sua retirada foi-lhe conferido por aquele clube, o título de presidente honorário. Está ainda vivo na memória de todos aqueles que acompanharam as atividades do enxadrismo nacional, e particularmente do Clube de Xadrez “S. Paulo”, o fato passado no tempo que se seguiu a seu afastamento daquele órgão, quando, elementos estranhos, exploradores do jogo de azar,- quiseram transformar.,o clube em casa de roleta. Impelido por precária situação financeira do clube, estava o presidente na iminência de ceder às exigências para aquele fim de exploração, quando diversos associados, amigos que depositavam toda confiança no Dr. Maurício Levy solicitaram sua interferência no sentido de ser vetado o desejo de transformação. Agindo com o senso de visão e com essa positiva energia que tão bem o caracteriza, conseguiu impedir a concretização do anti-esportivo e anti-patriótico objetivo.

Adicionando as suas atividades de dirigente, problemista e redator de xadrez, celebrizou- se, também, como notável enxadrista, detendo para si vários prêmios e títulos, competindo entre os maiores valores dos taboleiros paulistas. Há cerca de vinte anos, conquistou o título de campeão invicto do Clube de Xadrez “São Paulo”, época essa que marcou sua retirada das competições enxadrísticas.

Ornamentando :sua preciosa coleção de prêmios adquiridos através de sua participação no xadrez, destaca-se , uma valiosíssima medalha de ouro, finamente confeccionada, que lhe foi oferecida pelo “Derby Club” e em cuja medalha foi gravada uma composição de um problema, especialmente elaborado para esse fim, pelo compositor brasileiro Dr. Monteiro da Silveira.

Possuidor da maior biblioteca particular de xadrez no Brasil e quiçá no mundo inteiro (cerca de 1100 volumes), o Dr.Mauricio Levy mantém correspondência com todas as partes do mundo. Já fez diversas viagens para a Europa onde por muitas vezes foi homenageado.

Pelo que fez e continua fazendo em próI do enxadrismo, podemos considerá-lo o  expoente máximo no meio nacional e um dos maiores valores no cenário internacional. O jogo de xadrês é por ele mantido numa concepção bem elevada e não se cansa de recomendar essa pratica.à mocidade, pois, o xadrez, segundo sua filosofia, não só constitue e desenvolve o raciocínio como também, refreia a mocidade que tende a projetar-se para o campo das futilidades e desregramentos.

O Dr. Levy já não joga mais xadrez. Continua, no entanto, batalhando por ele, e, sem necessitarmos sagacidade de prognósticos, podemos afirmar que jamais abandonará o enxadrismo, o qual já faz parte do sangue que lhe corre pelas veias. E, como ele próprio o disse, com aquela espontaneidade que lhe é tão peculiar, o enxadrismo sempre foi a “cachaça” de sua vida.

O Precursor do Enxadrismo Nacional